Análise financeira e operacional com base nos Relatórios e Contas de 2024 e 2025, nas Grandes Opções do Plano 2026 e na crise de abastecimento de Julho de 2026. A comparação entre os documentos revela uma entidade financeiramente sólida, mas com três problemas distintos: dificuldade em executar investimento, capacidade hidráulica insuficiente e falta de margem operacional.
Tese central: os indicadores financeiros demonstram que os SMAS dispõem de capacidade económica para investir. A crise de 2026 sugere que o principal desafio deixou de ser financeiro e passou a ser operacional: aumentar a capacidade do sistema, renovar a infraestrutura existente e executar atempadamente os investimentos necessários para acompanhar a evolução da procura. Os documentos mostram três problemas diferentes — capacidade de executar investimento, capacidade hidráulica insuficiente e falta de margem operacional — que convergiram para a crise observada.
Nota metodológica: esta análise constitui uma opinião técnica baseada exclusivamente em informação pública disponível nos Relatórios e Contas de 2024 e 2025 dos SMAS de Almada, nas Grandes Opções do Plano 2026 e em informação pública sobre a crise de abastecimento de 2026, não representando auditoria, inspeção nem avaliação independente da entidade. As interpretações aqui apresentadas são conclusões analíticas do autor e não factos comprovados. Todos os valores indicados foram extraídos diretamente dos documentos oficiais publicados. A comparação entre os três documentos permite identificar tendências estruturais que não seriam visíveis na análise de um único ano.
Os valores financeiros e operacionais constam do Relatório e Contas de 2025.
Os SMAS passaram de um resultado positivo reexpresso de aproximadamente 103 mil euros em 2024 para um prejuízo de 874.641 euros em 2025.
A margem líquida foi de -2,66%. Não é um prejuízo que ponha em causa a continuidade da entidade. Contudo, revela uma deterioração significativa num serviço que não suporta dívida financeira, possui elevada liquidez, dispõe de uma base patrimonial superior a 93 milhões de euros e opera num mercado sem concorrência direta e com receitas recorrentes.
O problema principal encontra-se nos gastos operacionais.
A atividade principal não apresentou um crescimento especialmente forte. O aumento das vendas foi parcialmente anulado pela redução nas prestações de serviços.
Erro editorial no relatório: o relatório refere um aumento de "892 milhões de euros" em impostos, contribuições e taxas, quando a diferença correta é de aproximadamente 892 mil euros. É um erro editorial, não uma distorção material das demonstrações.
O crescimento dos gastos foi três vezes superior ao crescimento dos rendimentos: +1,5% nos rendimentos versus +4,5% nos gastos. O maior desvio ocorreu nos fornecimentos e serviços externos, que aumentaram 2,13 milhões de euros. O relatório atribui particular relevância ao aumento do custo da recolha e tratamento das lamas das ETAR.
Conclusão sobre o prejuízo: o prejuízo não resulta de juros, empréstimos, quebra acentuada de consumo ou crise de tesouraria. Resulta fundamentalmente da pressão dos custos operacionais externos.
Não há sinais de sobre-endividamento, dependência bancária, incapacidade de pagamento ou fragilidade patrimonial. O passivo aumentou 16%, mas continua baixo e o aumento não decorre de empréstimos — resulta sobretudo de provisões, diferimentos e outras contas a pagar.
Atenção à comparabilidade patrimonial: em 2024, os SMAS procederam a uma enorme reavaliação patrimonial de +47 milhões de euros por imposição da ERSAR. Isto significa que comparar diretamente o ativo de 2024 (já reavaliado) com o de 2025 pode ser enganador — parte da variação patrimonial não reflete investimento real, mas sim atualização de valores de ativos já existentes. Esta reavaliação deve ser considerada ao interpretar a evolução do balanço.
A caixa e equivalentes passaram de 4,65 M€ para 8,68 M€, um aumento de cerca de 87%. O fluxo de caixa operacional foi positivo em 6,69 M€, mais do dobro dos 3,14 M€ de 2024. Após investimento e financiamento, a caixa aumentou aproximadamente 4,03 M€.
Paradoxo: a entidade termina o ano com mais 4 milhões de euros em caixa, ao mesmo tempo que o investimento continua abaixo do desgaste contabilístico das infraestruturas. Ter liquidez elevada é positivo. Porém, numa entidade de infraestruturas com problemas de roturas, reforço de captações e interrupções, a acumulação de caixa deve ser analisada em conjunto com o investimento não executado.
A diferença foi de aproximadamente 2,01 M€. Isto significa que, por cada euro de desgaste contabilístico reconhecido, os SMAS investiram apenas cerca de 72 cêntimos.
Contexto importante: o próprio relatório de 2024 refere que "a execução dos últimos 3 anos representa 44% do total executado nos últimos 9 anos". Ou seja, os SMAS defendem que estão a investir mais do que no passado. Dizer simplesmente que "os SMAS não investem" não é correto. A crítica correta é outra: o investimento aumentou significativamente, mas continua insuficiente face ao desgaste dos ativos e às necessidades da rede.
Porque é importante: num único ano, este desfasamento não prova subinvestimento estrutural. Pode haver obras em curso ainda não pagas, ciclos plurianuais, aquisições contabilizadas de forma diferente ou ativos com depreciação elevada mas sem necessidade imediata de substituição. Contudo, o relatório refere que os ativos fixos tangíveis diminuíram aproximadamente 1,8%. Simultaneamente, reconhece elevado número de roturas e menor capacidade para executar manutenção preventiva.
Formulação adequada: em 2025, o investimento executado correspondeu a apenas 72% das depreciações e amortizações do exercício. Este valor, conjugado com a redução dos ativos fixos tangíveis e com a pressão operacional provocada pelas roturas, sugere que a reposição e renovação das infrastruturas poderá não estar a acompanhar integralmente o seu desgaste. O investimento cresceu face aos anos anteriores, mas o desfasamento mantém-se.
Valores de 2015–2024 são indicativos, baseados na referência do relatório de 2024 (“44% do total executado nos últimos 9 anos”). O investimento acelerou recentemente, mas partiu de níveis muito baixos.
O desfasamento de ~2 M€ significa que, em 2025, os ativos envelheceram mais do que foram renovados.
O reforço do subsistema da Aroeira aparece referido em ambos os relatórios — 2024 e 2025. As obras incluem booster, novo furo, reservatório e modelação da rede. O facto de as mesmas obras continuarem a ser referidas em dois exercícios consecutivos sugere que:
Este é um excelente indicador para a análise: demonstra que as vulnerabilidades da rede são conhecidas e identificadas pela própria entidade, mas a execução das soluções se prolonga no tempo. O problema não é de diagnóstico — é de execução.
Em 2024, a execução orçamental da despesa foi de aproximadamente 71%, com mais de 2 milhões de euros a transitarem para 2025 por obras ainda não concluídas. Em 2025, a execução continua próxima dos 70%. Isto começa a parecer um padrão, não um incidente pontual.
Os SMAS apresentam liquidez suficiente para investir, mas revelam dificuldades persistentes em transformar o orçamento disponível em investimento executado. Existe liquidez, não existe dívida financeira, existe capacidade de gerar caixa, existe saldo orçamental de quase 6 M€ a transitar, mas uma parte significativa da despesa prevista não foi executada. A questão não é falta de meios financeiros — é capacidade de execução.
Atenção metodológica: não se pode classificar automaticamente toda a diferença como "perda de água". Entre a captação e a faturação podem existir consumos operacionais, lavagens e descargas, água destinada a equipamentos e instalações, diferenças temporais de leitura, consumos autorizados não faturados, perdas aparentes e perdas reais por fugas e roturas. A formulação rigorosa seria: a diferença bruta entre água captada e água faturada ascendeu a cerca de 6,47 milhões de m³, equivalente a 34,9% da captação. O relatório não fornece a decomposição necessária para determinar quanto corresponde a perdas reais, perdas aparentes ou consumos autorizados não faturados. Este é um dos principais défices de informação do relatório.
Há estabilidade até 2024 e um aumento em 2025 (+2,7%). A água faturada, porém, cresceu apenas +0,43%. Em termos absolutos, a captação aumentou cerca de 489 mil m³, enquanto a faturação aumentou apenas cerca de 51 mil m³. Menos de 11% do aumento da captação se refletiu no aumento do volume faturado.
Isto pode resultar de agravamento das perdas, maior utilização operacional, diferenças de contabilização, reposição de reservas ou alterações temporais nas leituras. Sem balanço hídrico completo, não é possível determinar a causa. Mas a divergência merece destaque.
O relatório contém uma passagem particularmente importante: "O elevado número de roturas, sobretudo nos meses de verão, obrigou a reafetar a equipa de manutenção para reparações, reduzindo a capacidade de realizar manutenção preventiva."
Isto revela um risco de ciclo de deterioração:
Os indicadores de manutenção de acessórios da rede também recuaram:
Isto não demonstra negligência: o próprio relatório explica que os recursos foram deslocados para reparações. Mas comprova que as avarias estão a limitar a prevenção.
A qualidade da água deve ser reconhecida como ponto forte. Mas não deve ser confundida com segurança e continuidade do abastecimento. Uma entidade pode distribuir água com qualidade exemplar quando existe fornecimento e, simultaneamente, apresentar fragilidades na continuidade e pressão da rede.
Paradoxo: no mesmo ano em que os SMAS reportam 99,97% de qualidade da água, também desligam o abastecimento durante a noite. Isto ilustra perfeitamente a diferença entre qualidade (a água que chega é própria para consumo) e continuidade do abastecimento (a água nem sempre chega). Um sistema pode ter excelente qualidade e, simultaneamente, fragilidade operacional.
O relatório indica ainda que 89,8% das reparações foram concluídas em até quatro horas.
Evolução dos piquetes: em 2024 foram contabilizadas 3.085 intervenções de água e 3.353 de saneamento, num total de 6.438. Em 2025, o total subiu para 7.321. Há um aumento considerável das intervenções. Pode significar mais avarias, maior atividade ou melhor capacidade de resposta. Convém não assumir automaticamente que significa pior estado da rede — mas a correlação com o aumento de roturas e a redução da manutenção preventiva é consistente.
As reclamações passaram de 977 em 2024 para 1.886 em 2025, uma variação de +93%. Como 2024 tinha sido estável relativamente a 2023, o salto de 2025 ganha ainda mais significado — não é a continuação de uma tendência de deterioração, mas uma ruptura abrupta.
Há uma distinção importante: as reclamações sobre a qualidade da água diminuíram; as reclamações sobre a qualidade do serviço aumentaram 81%; os problemas de leitura, faturação e cobrança mais do que duplicaram. Isto é compatível com a tese de que o problema não está na potabilidade, mas na operação comercial e na experiência do utilizador.
Os SMAS emitiram 109.845 avisos de dívida ou suspensão, 33.658 SMS e 1.898 planos de pagamento. Além disso: 51% dos clientes utilizavam débito direto, 43% recebiam fatura eletrónica e 35% estavam registados no balcão digital.
A cobrança até melhorou ligeiramente face a 2024 (118.616 avisos e 2.011 planos em 2024 vs. 109.845 avisos e 1.898 planos em 2025). Portanto a cobrança claramente não parece ser um problema estrutural nos SMAS de Almada, ao contrário do que se observa nos SIMAR, onde o prazo médio de recebimento de 157 dias e 27,1 M€ de dívida vencida constituem o principal risco.
Informação em falta nos SMAS de Almada: montante total de dívida vencida, dívida por antiguidade, prazo médio de recebimento, taxa de cobrança, dívida considerada incobrável, concentração por grandes devedores e taxa de sucesso dos avisos e acordos. As imparidades de dívidas a receber foram de apenas 187 mil euros em 2025, mas sem a antiguidade da carteira não é possível avaliar se são adequadas.
Os SMAS tinham 430 trabalhadores. Os gastos com pessoal foram de 12,62 M€, praticamente iguais a 2024. O custo médio contabilístico foi de aproximadamente 29.355 € por trabalhador/ano (incluindo encargos patronais). O peso dos gastos com pessoal foi de cerca de 38,4% dos rendimentos — elevado em termos absolutos, mas estabilizado. A degradação do resultado de 2025 não decorreu dos trabalhadores: decorreu sobretudo do crescimento de 23,9% nos fornecimentos e serviços externos.
Os fornecimentos e serviços externos passaram de 8,92 M€ para 11,04 M€, um aumento de 2,13 M€. Este acréscimo, por si só, é mais de duas vezes superior ao prejuízo do exercício. Isto sugere que o resultado teria permanecido positivo sem o aumento extraordinário desta rubrica, mantendo tudo o resto constante.
Para o estudo completo, interessa decompor: recolha e destino de lamas, energia, manutenção, serviços técnicos, vigilância e segurança, informática, contratação externa e trabalhos especializados. O relatório explica parcialmente a variação, mas não apresenta no relatório de gestão uma decomposição suficientemente acessível para o leitor comum.
As contas de 2024 foram reexpressas por vários erros ou correções:
O efeito líquido no resultado comparativo de 2024 foi de aproximadamente 636 mil euros.
Isto não significa necessariamente manipulação. A reexpressão é o procedimento contabilístico correto quando são identificados erros materiais. No entanto, demonstra fragilidades nos processos contabilísticos e de integração de ativos, necessidade de cautela nas comparações históricas e importância de apresentar sempre os valores reexpressos, não os originalmente publicados.
Os SMAS apresentam uma redução continuada do número de trabalhadores, passando de 458 efetivos em 2023 para 430 em 2025, acompanhada por uma idade média de 50 anos, antiguidade média de 20 anos e uma taxa de reposição de apenas 83% das saídas. Simultaneamente, registam uma taxa de absentismo de 13,02% e 38 acidentes de trabalho com 1.800 dias perdidos.
Estes indicadores sugerem uma pressão crescente sobre os recursos humanos disponíveis para executar a manutenção e os investimentos previstos. Embora não permitam concluir que esta seja a principal causa da baixa execução do investimento, constituem um fator plausível que pode contribuir para explicar a dificuldade em concretizar obras estruturantes ao ritmo planeado.
A conjugação de redução de efetivos, envelhecimento da força de trabalho, taxa de reposição inferior a 100% e absentismo elevado forma um quadro que merece atenção. O GOP 2026 dedica um conjunto significativo de medidas a recrutamento, competências, retenção, formação e riscos psicossociais — o que sugere que os próprios SMAS reconhecem esta como uma área de risco. A questão central é se a capacidade humana disponível é suficiente para executar o volume de investimento necessário ao ritmo exigido pelo envelhecimento e pela vulnerabilidade das infrastruturas.
O relatório de 2024 é explícito quanto à missão institucional. Logo na declaração de missão aparece: "Assegurar a gestão pública e a autonomia do poder local para gerir (...) o bem comum que é a água."
Isto é importante porque confirma documentalmente que a autonomia municipal não é apenas uma consequência administrativa — é um objetivo estratégico assumido pelos próprios SMAS. Esta declaração deve ser considerada quando se discute a opção de permanecer fora de um sistema multimunicipal.
A discussão sobre a integração de operadores municipais em sistemas multimunicipais (como Águas do Tejo Atlântico, Águas do Ribatejo, etc.) tende a ser ideológica. Uma análise baseada em indicadores objetivos de investimento, resiliência e desempenho permitiria elevar o debate: não se trata de defender ou recusar a integração por princípio, mas de avaliar se o modelo municipal autónomo está a produzir resultados comparáveis em termos de renovação da rede, redução de perdas e continuidade do serviço.
O caso de Almada pode, por isso, ser ainda mais interessante: uma entidade pode parecer exemplar do ponto de vista financeiro e, ainda assim, estar a acumular risco técnico.
A análise dos Relatórios e Contas de 2024 e 2025 pode ser complementada com um terceiro documento: as Grandes Opções do Plano (GOP) 2026. Este documento é particularmente interessante porque mostra onde os próprios SMAS acreditam que estão os seus principais problemas — não apenas em retrospetiva, mas em perspetiva de planeamento.
Em praticamente todas as secções do GOP 2026 aparecem expressões como aumentar a resiliência, reduzir vulnerabilidades, adaptação às alterações climáticas, redundância dos sistemas e segurança do abastecimento. Isto significa que os próprios SMAS entendem que o problema principal não é apenas reparar avarias, mas tornar a rede mais resistente.
É provavelmente o tema mais repetido em todo o documento. O GOP 2026 prevê:
Isto confirma que as perdas de água são consideradas um dos maiores fatores de custo e um eixo estratégico de intervenção. A conjugação com a diferença de 34,9% entre captação e faturação observada nos relatórios financeiros reforça a relevância desta prioridade.
Depois de analisados os relatórios de 2024, 2025 e o GOP 2026, a Aroeira aparece referida em todos. As intervenções incluem novo furo, novos órgãos do sistema, telemetria, válvulas do sistema de vácuo, substituição de contadores e modelação da rede. Depois de três documentos seguidos, parece evidente que a Aroeira é uma das maiores fragilidades do sistema de abastecimento.
Em vez de apenas construir condutas novas, o GOP 2026 revela forte aposta em sensores, telemetria, telegestão, ERP, digitalização documental, bases de dados, backup e disaster recovery. Os SMAS caminham para uma gestão muito mais digital da infraestrutura.
O GOP 2026 introduz preocupações que praticamente não apareciam há alguns anos: cumprimento da diretiva NIS2, segurança OT (Operational Technology), Disaster Recovery, continuidade do negócio, gestão de backups e proteção dos sistemas críticos. Para um operador de infraestruturas de água, a cibersegurança passa a ser um fator de resiliência tão relevante como a robustez física da rede.
Não se encontram praticamente grandes expansões da rede no GOP 2026. O foco é renovar, reabilitar, substituir, manter e reforçar. Isto é típico de uma infraestrutura madura que entrou na fase de gestão do stock de capital em vez de expansão da cobertura.
O plano inclui painéis fotovoltaicos, substituição de bombas, racionalização energética e autossuficiência. O infográfico do relatório indica uma autossuficiência energética de cerca de 19,8%, indicando margem para evolução. Aparece também a reutilização de águas residuais (ARUT, tratamento quaternário, projeto LIFE), mostrando preparação para futuras exigências ambientais.
O GOP 2026 dedica um conjunto significativo de medidas a recrutamento, competências, retenção, formação, intranet, riscos psicossociais, motivação e comunicação interna. Quando um plano dedica tantas páginas aos trabalhadores, normalmente significa que existe preocupação com renovação geracional e disponibilidade de competências — um fator que pode estar diretamente ligado à capacidade de execução do investimento.
O aumento previsto das receitas é relativamente moderado e parece assentar sobretudo em atualização pela inflação, crescimento natural da faturação e pequenas atualizações tarifárias. Não há previsão de saltos bruscos de receita.
Os documentos dos próprios SMAS demonstram que os principais riscos do sistema — aumento da capacidade de captação, reforço da reserva, redução das perdas, aumento da resiliência e revisão da estrutura hidráulica — já estavam claramente identificados antes da crise de abastecimento de 2026. A ocorrência da crise indica que o reconhecimento técnico desses problemas não foi acompanhado, em tempo útil, pela concretização das soluções necessárias para responder ao crescimento da procura e aos períodos de maior consumo.
A grande questão que este estudo tenta responder: porque chegou Almada à situação de ter de desligar a água durante a noite? A resposta não se encontra num único fator nem num único executivo. Resulta da convergência de vários elementos técnicos e de gestão ao longo de vários anos.
Para responder a esta pergunta com base em evidência documental, o estudo deve analisar:
Os documentos analisados mostram uma cronologia clara de alertas técnicos que precederam a crise:
A crise não foi uma simples avaria. A escala das medidas adotadas mostra a gravidade da situação:
15 localidades inicialmente afetadas
↓
6 localidades com cortes noturnos
Estado de alerta declarado
Gabinete de crise ativado
Camiões cisterna em circulação
Proibição de regas
Proibição de lavar carros
Encerramento de equipamentos públicos
Adiamento de eventos
Quando um município precisa de proibir regas, encerrar equipamentos e adiar eventos, já não estamos perante uma avaria pontual. Estamos perante colapso parcial do serviço público de abastecimento.
Conclusão preliminar: a crise de 2026 não resulta de um evento imprevisto. Os documentos oficiais mostram que os problemas técnicos foram identificados repetidamente ao longo de vários anos. O que faltou não foi diagnóstico — foi execução atempada das soluções identificadas. Esta é, aliás, a mesma conclusão que emerge da análise financeira: os SMAS têm recursos, identificam os problemas, planeiam as soluções, mas a velocidade de execução não acompanha a urgência das necessidades.
Esta abordagem será muito mais sólida do que atribuir a responsabilidade a um único fator ou a um único executivo, porque mostrará como vários elementos técnicos e de gestão convergiram para a crise observada em 2026: o crescimento da procura, o envelhecimento da rede, as perdas elevadas, a insuficiência da captação e da reserva, a baixa execução do investimento e a persistência de projetos plurianuais não concluídos.
A crise de 2026 gerou posições públicas de várias entidades. Cada uma destacou um fator diferente, refletindo as respetivas perspetivas institucionais:
A análise documental sugere que nenhuma destas explicações, isoladamente, explica toda a crise. Os dados apontam para uma combinação de crescimento da procura, limitações de capacidade, perdas elevadas, envelhecimento das infrastruturas e dificuldades persistentes na execução do investimento. Cada entidade identificou uma parte do problema — mas o problema completo só se compreende quando todas as perspetivas são integradas.
A Câmara Municipal fala constantemente em "aumento muito significativo do consumo", mas esse aumento nunca é quantificado nos relatórios financeiros. Para compreender a crise, seria necessário conhecer:
Se o consumo médio diário aumentou, por exemplo, 50% durante alguns dias de Julho, e a margem entre capacidade e procura já era estreita, o sistema colapsa — não por avaria, mas por insuficiência de capacidade. É o equivalente hidráulico de um congestionamento de tráfego: não há um único culpado, há um sistema sem margem para absorver picos.
Valores ilustrativos. A obtenção de dados reais de capacidade de produção, armazenamento e picos de consumo permitiria confirmar esta hipótese e transformar o estudo numa análise hidráulica completa.
Se se conseguir obter a produção máxima diária, o consumo máximo diário, a capacidade dos reservatórios e a produção dos furos, o estudo deixa de ser apenas financeiro e passa a explicar porque o sistema colapsou — não apenas em termos contabilísticos, mas em termos físicos e operacionais.
Uma análise financeira tradicional avalia quanto custa investir. Mas a crise de 2026 levanta a pergunta inversa: quanto custa não investir?
Os custos de não investir manifestam-se em várias dimensões:
Estes custos não aparecem nas contas dos SMAS. Aparecem na economia local, na perda de produtividade, na degradação da imagem do concílio e na confiança dos cidadãos. Um estudo completo deveria estimar este custo e compará-lo com o investimento que teria evitado a crise. Se o custo de não investir for superior ao custo de investir, então o aparente “poupança” financeira dos SMAS é, na realidade, um custo diferido para a economia local.
Os SMAS de Almada apresentam uma das estruturas financeiras mais sólidas entre os operadores municipais portugueses. A entidade não possui dívida financeira relevante, dispõe de elevada autonomia patrimonial (88,14%), liquidez confortável, quase 8,7 milhões de euros em caixa e capacidade para gerar fluxos operacionais positivos.
Contudo, esta robustez financeira contrasta com vários sinais de pressão técnica e operacional que se agravaram em 2025. O investimento executado ficou cerca de dois milhões de euros abaixo das depreciações, os ativos fixos tangíveis diminuíram, as roturas obrigaram a reduzir a manutenção preventiva, as reclamações quase duplicaram e foram comunicadas 218 interrupções não programadas. A comparação com 2024 revela que estas não são anomalias pontuais: a execução orçamental da despesa ronda os 70% em ambos os exercícios, o projeto da Aroeira prolonga-se por vários anos e as intervenções do piquete aumentaram de 6.438 para 7.321.
A diferença entre água captada e faturada atingiu aproximadamente 6,47 milhões de metros cúbicos, mas o relatório não apresenta um balanço hídrico que permita distinguir perdas reais, perdas aparentes e consumos autorizados não faturados.
Assim, o principal risco dos SMAS de Almada não é financeiro. Os indicadores demonstram que a entidade dispõe de capacidade económica para investir. A crise de 2026 sugere que o principal desafio deixou de ser financeiro e passou a ser operacional: aumentar a capacidade do sistema, renovar a infraestrutura existente e executar atempadamente os investimentos necessários para acompanhar a evolução da procura.
A pergunta central não é se os SMAS têm recursos para investir. Os números indicam que têm. A pergunta é se conseguem planear, contratar e executar o investimento necessário ao ritmo exigido pelo envelhecimento e pela vulnerabilidade das infrastruturas. A crise de 2026 respondeu a essa pergunta de forma inequívoca: não, ainda não conseguem.
Depois de analisados os três documentos — Relatório e Contas de 2024, Relatório e Contas de 2025 e Grandes Opções do Plano 2026 — e a crise de abastecimento de 2026, emerge um padrão que merece destaque como conclusão central do estudo.
Os SMAS de Almada não parecem ser uma entidade financeiramente em dificuldade. Pelo contrário, demonstram equilíbrio financeiro e planeamento. O problema que emerge de forma consistente é outro: têm consciência clara dos riscos técnicos, identificam corretamente as intervenções prioritárias, planeiam muitas ações todos os anos, mas várias dessas ações reaparecem em documentos sucessivos — e a crise de 2026 demonstra que as consequências de não executar atempadamente são reais e afetam a população.
Isso sugere um desfasamento entre o planeamento estratégico e a velocidade de execução. Não significa necessariamente má gestão — pode resultar de limitações de contratação pública, recursos técnicos, licenciamento ou capacidade operacional — mas é um padrão que merece ser analisado. O caso da Aroeira, presente em três documentos consecutivos e ainda não concluído quando a crise ocorreu, é o exemplo mais claro desta dinâmica.
Para um artigo técnico, esta é uma das conclusões centrais: o desafio dos SMAS de Almada parece ser menos definir o que fazer e mais conseguir executar a renovação das infrastruturas ao ritmo que eles próprios consideram necessário. O GOP 2026 mostra que os SMAS sabem exatamente onde estão os problemas — resiliência, perdas, Aroeira, digitalização, cibersegurança, recursos humanos. A crise de 2026 confirma que a qualidade do diagnóstico não é suficiente quando a execução não acompanha.
Esta análise deve ser acompanhada de uma nota metodológica idêntica à página SIMAR: trata-se de uma interpretação técnica baseada exclusivamente em informação pública e não de uma auditoria ou inspeção independente.
Balanço hídrico: o relatório não apresenta a decomposição entre perdas reais, perdas aparentes e consumos autorizados não faturados, impedindo uma avaliação rigorosa da eficiência da rede.
Cobrança e crédito: falta divulgar claramente o montante total de dívida vencida, a dívida por antiguidade, o prazo médio de recebimento, a taxa de cobrança, a dívida considerada incobrável, a concentração por grandes devedores e a taxa de sucesso dos avisos e acordos.
Decomposição dos custos externos: o aumento de 23,9% nos fornecimentos e serviços externos não é decomposto de forma suficientemente acessível no relatório de gestão.
Capacidade de execução do investimento: a execução orçamental de apenas 70% levanta questões sobre a capacidade de planeamento, contratação e execução que não são respondidas no relatório.
Capacidade hidráulica: o relatório não divulga de forma acessível a capacidade máxima de produção, a capacidade de armazenamento, o consumo máximo diário nem a margem entre capacidade e procura nos meses de pico. Sem estes dados, não é possível determinar com rigor porque o sistema colapsou em Julho de 2026.
Custo económico da crise: não existe qualquer estimativa do impacto económico da crise de abastecimento sobre a economia local — restaurantes, hotéis, comércio, serviços públicos e cidadãos.
Esta análise baseia-se exclusivamente nos seguintes documentos públicos:
Todos os valores financeiros, indicadores e citações foram extraídos diretamente dos documentos acima referidos. A data de acesso corresponde ao período de elaboração desta análise.
Para avaliar se existe descapitalização técnica ao longo de vários anos — e não apenas em 2025 — seria necessário comparar o investimento executado com as depreciações reconhecidas em cada exercício desde 2018. O relatório de 2024 refere que a execução dos últimos 3 anos representou 44% do total executado nos últimos 9 anos, o que sugere um aceleramento recente do investimento. Contudo, a análise da série completa permitiria determinar se o desfasamento de 2025 (investimento = 71,7% das depreciações) é uma situação recorrente ou um desvio pontual.
Esta análise plurianual é um dos capítulos que distingue este estudo do caso SIMAR. A pergunta não é se os SMAS investem pouco num ano isolado, mas se o investimento acumulado de vários anos compensa o desgaste acumulado das infrastruturas. A resposta a esta pergunta determina se estamos perante descapitalização técnica estrutural ou apenas um desfasamento conjuntural.
Atenção à reavaliação de 2024: a reavaliação patrimonial de +47 M€ imposta pela ERSAR em 2024 alterou o valor dos ativos fixos tangíveis, o que pode ter impactado as depreciações dos exercícios seguintes. A comparação do rácio investimento/depreciações antes e depois da reavaliação deve ser interpretada com esta cautela.
A evolução da água captada, distribuída, faturada e das perdas é um indicador fundamental da eficiência da rede. Os dados disponíveis mostram:
A diferença bruta entre captação e faturação ronda os 35%, mas o relatório não apresenta a decomposição entre perdas reais (fugas e roturas), perdas aparentes (fraudes, erros de medição) e consumos autorizados não faturados (lavagens, descargas, consumos operacionais).
Esta análise seria um dos capítulos distintivos do estudo. A comparação com os indicadores ERSAR e com outros operadores permitiria posicionar os SMAS de Almada no contexto setorial e avaliar se a diferença captação/faturação está acima ou abaixo da média do setor. Sem esta decomposição, qualquer afirmação sobre "perdas de água" carece de rigor metodológico.
Os SMAS de Almada são um operador municipal autónomo. A alternativa institucional seria a integração num sistema multimunicipal ou intermunicipal, como Águas do Tejo Atlântico, Águas do Ribatejo, ou outros. A discussão sobre esta opção tende a ser ideológica — entre defensores da gestão pública local e defensores de economias de escala.
Uma análise baseada em indicadores objetivos permitiria elevar o debate. Os critérios de comparação deveriam incluir: investimento executado por km de rede, taxa de renovação dos ativos, índice de perdas de água, continuidade do abastecimento, capacidade de execução orçamental, custo por m³ faturado e indicadores de satisfação do utilizador.
O facto de os SMAS de Almada declararem como missão "Assegurar a gestão pública e a autonomia do poder local para gerir o bem comum que é a água" mostra que a opção pela autonomia municipal é uma escolha estratégica assumida. A análise deve respeitar essa escolha, mas pode e deve avaliar se os resultados operacionais e de investimento são compatíveis com as necessidades da rede.
Nota de cautela: este estudo não demonstra que a integração num sistema multimunicipal resolveria os problemas identificados. Há vantagens potenciais (economias de escala, acesso a financiamento, capacidade técnica) e há inconvenientes potenciais (perda de controlo local, afastamento do decisão, tarifas potencialmente mais elevadas). A comparação entre modelos exige dados homogéneos entre operadores que não estão disponíveis neste estudo. A discussão deixa de ser ideológica apenas quando passa a assentar em indicadores objetivos de investimento, resiliência e desempenho — mas essa comparação está fora do âmbito deste artigo.
Este capítulo — que não existe no caso dos SIMAR — transforma o estudo numa contribuição para o debate nacional sobre o modelo de gestão dos serviços de água em Portugal.